Existem muitos conselhos de escrita por aí. Alguns são bastante conhecidos: escreva todos os dias, leia muito, revise seu texto, mostre em vez de contar. Outros parecem tão estranhos que a primeira reação é pensar: “Mas como isso vai me ajudar a escrever?”
É justamente aí que pode estar a graça.
Em um artigo publicado em maio de 2026, no The New Yorker, o editor e writing coach David O’Neill parte do livro three six five: prompts, acts, divinations, de Lucy Ives, para refletir sobre exercícios de escrita pouco convencionais. A proposta de Ives é interessante porque muitos de seus exercícios não têm uma maneira “certa” de serem realizados. E talvez seja justamente esse o ponto: quando você para de tentar acertar, pode descobrir algo que não encontraria seguindo uma fórmula.
Pensando nisso, reunimos 20 conselhos de escrita. Alguns são práticos. Outros são estranhos. Alguns parecem até impossíveis.
Mas todos têm algo em comum: podem fazer você olhar para sua própria escrita de outro jeito.
1. Trabalhe no texto. E em você também
Escrever melhor não depende apenas de conhecer técnicas, mas também trabalhar no próprio “caráter”. A frase pode ser entendida de duas maneiras: melhorar a pessoa por trás da escrita e desenvolver os personagens da história.
No fim das contas, aquilo que você observa, sente, lê e experimenta também chega às páginas.
2. Leia seu texto em voz alta
Você pode passar horas revisando uma frase silenciosamente e não perceber nada de errado.
Até que a lê em voz alta. De repente, aparece uma repetição, uma palavra estranha, uma frase longa demais ou um trecho que simplesmente não soa natural.
Faça o teste na próxima revisão. Seu ouvido pode encontrar problemas que seus olhos deixaram passar.
3. Perceba quando você começa a se divertir
Nem toda parte da escrita precisa ser fácil, mas preste atenção aos momentos em que escrever deixa de parecer uma obrigação e começa a ficar divertido.
Esse momento pode indicar que você encontrou alguma coisa importante: uma voz, uma cena, um personagem ou uma ideia que realmente desperta seu interesse.
4. Pare de escrever para um juiz imaginário
Existe um leitor que pode ser especialmente difícil de agradar: aquele que mora na sua cabeça.
Ele julga a frase antes mesmo de ela terminar. Pergunta se está boa, inteligente, original ou sofisticada o suficiente.
O problema é que esse julgamento constante pode deixar a escrita travada. Então, pelo menos durante o primeiro rascunho, deixe esse juiz do lado de fora.
5. Desconfie de quem diz que sabe exatamente como você deve escrever
Conselhos são úteis, regras também podem ser, mas nenhum manual consegue tomar todas as decisões por você.
Uma técnica que funciona para determinado escritor pode não funcionar para outro. Um método que destrava um romance pode ser completamente inadequado para um livro de memórias.
Use conselhos como ferramentas, não como leis.
6. Escreva sobre algo que você esqueceu
Parece impossível, certo? Justamente por isso o exercício pode ser interessante.
Quando não existe uma resposta certa, você pode abandonar a preocupação com o resultado e começar a explorar.
E talvez descubra algo no caminho.
7. Faça um exercício que não dá para acertar
Se você sempre escreve tentando cumprir uma determinada regra, experimente fazer o contrário: crie uma proposta na qual não exista um resultado correto.
Por exemplo:
- Descreva uma memória que você não consegue lembrar;
- Escreva uma história sem usar a letra “a”;
- Descreva um lugar sem dizer onde ele fica;
- Escreva uma cena sem utilizar verbos de fala;
- Conte uma história começando pelo fim.
O objetivo não é produzir um texto perfeito, mas descobrir o que acontece quando você muda as regras do jogo.
8. Descreva sua cama depois de ter dormido nela
Esse exercício aparece no livro three six five e é citado por O’Neill em sua análise.
A proposta começa com algo muito concreto: descrever a cama depois que você dormiu nela. Depois, a ideia avança para uma cadeira em que você se sentou, um cômodo que deixou, um copo do qual bebeu e até uma pessoa que você já não conhece.
Parece simples, mas existe uma provocação aí: olhar para coisas extremamente familiares como se você precisasse realmente percebê-las.
9. Descreva aquilo que já não faz parte da sua vida
Uma pessoa que você não conhece mais. Um lugar que você deixou. Uma crença que mudou. Um objeto que perdeu importância.
Esses exercícios podem parecer pequenos, mas obrigam você a observar transformação, distância e memória.
10. Quando estiver tentando demais, pare um pouco
Existe uma diferença entre se dedicar e tentar controlar cada palavra.
Às vezes, você está tão preocupado em escrever uma boa cena que a cena simplesmente não acontece. Faça uma pausa. Escreva sem se preocupar tanto com o resultado.
11. Use regras, mas não deixe que elas escrevam por você
- “Mostre, não conte.”
- “Mate seus queridinhos.”
- “Escreva todos os dias.”
Existem inúmeros mantras de escrita. Eles podem ajudar porque dão alguma estrutura ao processo. O problema começa quando o escritor tenta aplicar uma regra a absolutamente tudo.
Como observa O’Neill, regras podem orientar a técnica, mas não conseguem controlar completamente de onde vem uma obra.
Confira também 7 dicas de escrita de Luis Fernando Verissimo.
12. Técnica resolve problemas técnicos. Nem todo problema é técnico
Às vezes, seu capítulo está ruim porque a estrutura precisa ser revista, mas nem sempre.
Talvez você não saiba ainda o que quer dizer. Ou o personagem não tenha encontrado seu conflito.
Talvez a história tenha seguido uma direção que não interessa mais a você. Antes de procurar mais uma técnica, pergunte: o problema realmente é de técnica?
Essa pergunta pode economizar muitas horas de revisão.
13. Deixe o primeiro rascunho ser ruim
Essa talvez seja uma das ideias mais libertadoras para quem escreve. O primeiro rascunho não precisa ser a versão final. Ele precisa existir.
Você não precisa encontrar a frase perfeita enquanto ainda está descobrindo a história. Primeiro, coloque a história no papel. Depois, trabalhe nela.
14. Escreva uma resenha de um livro que não existe
Pegue uma folha e imagine um livro completamente inventado. Agora escreva uma resenha sobre ele.
- Qual é o título?
- Quem escreveu?
- Sobre o que é?
- O que torna esse livro interessante?
- O que um leitor criticaria?
Esse exercício pode ser uma forma divertida de criar personagens, mundos, conflitos e até histórias sem começar pela pergunta assustadora: “sobre o que vou escrever?”
15. Repita uma palavra até ela perder o sentido
Escolha uma palavra. Repita. De novo. E mais uma vez.
Até ela começar a parecer estranha.
Além de ser curiosa, ela pode fazer você perceber algo interessante sobre a linguagem: palavras que usamos automaticamente podem se tornar estranhas quando observadas de perto.
16. Escreva uma frase de trinta páginas
Sim, trinta páginas. A proposta é deliberadamente exagerada.
Você provavelmente não precisa escrever uma frase desse tamanho no seu romance.
A questão é outra: o que acontece quando uma regra absurda tira você do seu jeito habitual de escrever?
17. Crie uma obra circular
O que significa uma obra circular?
Pode ser uma história que termina onde começou. Um poema que pode ser lido de trás para frente. Um texto cujo final muda o significado do início. Um livro que contém sua própria origem.
Você decide.
18. Se o rascunho não funciona, talvez você precise exagerar o problema
Existe uma tentação comum quando um texto não funciona: tentar deixá-lo mais parecido com aquilo que imaginamos que ele deveria ser. Mas e se você fizer o contrário?
Em vez de corrigir imediatamente aquilo que parece estranho, experimente levar o estranho até o limite. Talvez exista uma voz ali.
19. Escreva para descobrir o que você pensa
Você não precisa saber exatamente o que quer dizer antes de começar. Às vezes, a ideia aparece durante a escrita.
Você começa com uma pergunta, uma lembrança ou uma inquietação. Depois, uma frase leva à outra. E, quando percebe, entende melhor aquilo que estava tentando pensar.
Por isso, nem todo texto precisa começar com uma conclusão.
20. Faça alguma coisa com o fracasso
- Um texto que não funcionou.
- Uma história abandonada.
- Um personagem que não deu certo.
- Um capítulo que você odeia.
- Um projeto que nunca terminou.
O fracasso na escrita não precisa ser apenas um arquivo esquecido no computador. Ele também pode mostrar o que você gosta, o que não quer repetir e quais caminhos ainda podem ser explorados.
Afinal, qual é o melhor conselho para quem escreve?
Talvez não exista um único conselho capaz de resolver todos os problemas de um escritor.
Existem técnicas que ajudam a estruturar uma história. Existem exercícios que ajudam a desenvolver a criatividade. Existem regras que podem melhorar um texto. Existem livros inteiros dedicados a ensinar como escrever.
Mas escrever também envolve descobrir o que só você pode colocar naquela página.
Por isso, da próxima vez que sentir que está travado, talvez não seja necessário procurar mais uma fórmula.
E se você já tem uma história, uma ideia ou um manuscrito guardado, talvez o próximo passo seja transformar essa escrita em um livro.
A Editora Albatroz pode acompanhar você nesse caminho, da preparação do original à publicação.








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